RSS

Suportes digitais: Discos Rígidos (II)

Há duas estratégias base para aumentar a taxa de sobrevivência da informação contida nos discos rígidos.

Uma, típica de todo o armazenamento digital, é a redundância total ou mirroring (gravar a mesma informação em mais do que um suporte). No caso dos discos rígidos, convém usar discos de marcas diferentes, se possível, para evitar que todas as cópias sofram do mesmo tipo de degradação causada por métodos de fabrico exactamente iguais

E digo “se possível” porque a indústria dos discos rígidos está a consolidar-se e neste momento só há 3 fabricantes (Seagate, WesternDigital e Toshiba), o que já constitui um oligopólio. 

Como o recomendado é ter 3 cópias, com três fabricantes ainda estamos bem.

A outra, é a redundância parcial com correcção de erros aplicada a um conjunto de discos. Esta técnica, inicialmente desenhada para se poder criar um “disco” maior ou mais rápido do que qualquer disco individual, fazendo um conjunto de discos trabalharem em uníssono no que se designa como RAID (Redundant Array of Inexpensive Disks), também permite, em certos modos, que o conteúdo do RAID não se perca em caso de avaria de um disco individual.

Quando se escrevem dados num RAID nível 3 ou superior, é feito um cálculo sobre os dados a gravar, e o resultado do cálculo (a paridade) é gravado num outro disco. Caso um dos discos avarie, a paridade permite reconstruir as partes em falta que estavam alojadas no disco avariado. Caso o disco da paridade avarie, os outros discos permitem reconstruir a paridade.

Na prática usar um único disco para a paridade é uma parvoíce e normalmente usam-se os níveis 5 ou 6 para RAID, em que a paridade se distribui equativamente por todos os discos.


(A1,A2,A3 contêm dados, Ap é a paridade dos blocos A)

Num sistema com 4 discos, usar um disco para a paridade significa que usámos 25% do nosso investimento para assegurar a sobrevivência dos dados. Por isso, convêm que os RAIDs sejam constituídos por muitos discos. Mas usar mais discos significa usar controladores e gavetas (enclosures) mais caros, gastar mais energia e ter maior probabilidade de avarias, o que leva a ser necessário usar RAID6 (com dois discos de paridade). E quando os discos ultrapassarem os 5 TB, a taxa de erros inevitável nos discos rígidos poderá levar a que um array, ao se reconstruir, detecte um erro de leitura adormecido num outro disco e já passamos a precisar de RAID7 (3 discos de paridade). Não tem fim.

Greetings, Professor Falken. A strange game; the only winning move is not to play.

 
1 Comentário

Publicado por em 15 de Maio de 2013 em Cinema Português, Restauro

 

Etiquetas: , , , ,

Os publicitários não vão ao cinema?

Claro que não. (Perguntas retóricas a esta hora da manhã?)

O Cinema é do século passado, já ninguém quer saber, publicidade agora é nas mamas da brasileira do Big Brother e nos links que os “teus” amigos te mandam pelo FaceLivro porque deram autorização para que publicássemos press-releases assinadas por eles em troca da inscrição num sorteio qualquer.

Só pode ser isso. Mas estão-se de tal forma a borrifar que nem querem saber o que estão a receber em troca do dinheiro que dão à Zon e à Screenvision? E os clientes deles, também se estão a borrifar, ou, dada a sua classe social, não põem os pés numa sala de cinema há anos, porque não se misturam com “o povo”? Como se “o povo” ainda tivesse dinheiro para ver filmes… “O povo” já paga a mensalidade da Internet e a banda larga só existe para uma coisa! (OK, contando com a Regra 34, duas coisas – mas vocês não deviam saber o que é a Regra 34, seus marotos.)

E os distribuidores de cinema, será que vêem os trailers que encomendam?

Eis algumas das coisas que vi e ouvi no último mês em salas de cinema em Lisboa:

Em primeiro lugar, quase tudo o que não é filme de uma major está em puro estéreo da mistura TV, sem canal central e sem surround. No tempo do analógico, o sistema Dolby criava automaticamente estes canais a partir da mistura TV, colocando automagicamente as vozes e os efeitos de som no centro da imagem, e de vez em quando também dava o bónus de preencher a sala com uma ambiência mais ou menos reconfortante sem que o misturador tivesse de saber sequer que havia um canal central, um surround, nem para que serviam. Ou seja, sem saber nada de som de cinema (onde durante 50 anos só houve canal central, excepto nos formatos de 70mm).

Mas em cinema digital não há Dolby para segurar os cueiros do misturador. Por isso o som parece vir sempre da coluna no canto da sala que está mais próximo de nós, e muitas vezes está todo desiquilibrado porque foi misturado para passar nas colunecas de um LCD caseiro, e uma sala de cinema, mesmo ranhosa, tem um sistema de som com vários milhares de watts. E geralmente novinho em folha, porque o sistema anterior foi arrancado junto com o velhinho projector de película.

Ou seja, em Cinema Digital as cuecas do Som estão à mostra, e aparentemente estão cheias de buracos. Em um mês, não encontrei UMA publicidade que não sofresse disto (se calhar tive azar, agora até há DUAS salas de mistura de cinema em Lisboa). E não encontrei UM trailer português ou encomendado por uma distribuidora portuguesa que não sofresse disto – porque não vi o trailer do “É o Amor”, que aparentemente é honrosa excepção.

Na imagem, vi coisas giras também:

Publicidades “leitosas” – imagem de vídeo mal convertida para curva de densidades de cinema

Publicidades “máscara africana” – imagem de cinema ou gráficos convertida como se fosse vídeo para curva de cinema (conversão dupla)

Publicidades com florestas vermelhas e caras verdes (“Game of Thrones”) – aparentemente, imagem sem conversão para XYZ, mas só Maomé saberá o que se passou ali.

Trailers tirados de uma cassete vídeo (leitosos, sem definição, som fininho e com legendas pixelizadas) – “Photo”

Trailers tirados do Youtube (só pode!) – ainda mais pixelizado que o anterior, ainda mais leitoso que o anterior, esverdeado e sem definição nenhuma, e esticado ao alto com toda a gente magrinha como a Kate Moss (e ocupando uma janelinha quadrada no centro do ecrã porque não foi expandido para Scope como devia) – “Faust”.

Ou seja, ninguém vê o que está a fazer. Quem paga não quer saber. E eu pago bilhete e nem têm a decência de me tentar convencer a ver outro filme com algo melhor que um video do Youtube.

A exibição está doente (III). Terminal.

 

Etiquetas: , , , , , , , , , , , ,

Suportes digitais: Discos Rígidos (I)

Os discos rígidos são uma tecnologia de armazenamento magnético, ou seja, em que a informação é guardada pela alteração de uma propriedade mensurável e estável (o magnetismo) do próprio objecto de registo. Seis décadas de investimento e avanço tecnológico permitiram que passássemos de discos com 5MB da dimensão de um armário e o custo de um automóvel, para discos de secretária que armazenam 4TB (ou seja, 14 DCPs) por 300€.

1956: IBM 350 (5MB em cada armário) – link

2012 – WD Caviar Black 4TB

No entanto, o disco rígido é uma tecnologia complexa e de alta precisão, vivendo da intersecção do magnetismo e da aerodinâmica, com a agravante de o mecanismo de leitura ser extremamente complexo e indissociável da superfície de registo da informação.

Ou seja, o mecanismo de leitura é frágil e em caso de avaria é extremamente difícil colocar o suporte que contém a informação noutro mecanismo idêntico e recuperar a informação. Estes dois vídeos dão uma ideia melhor do que estou a falar:


O resultado prático é que um disco rígido numa prateleira é como o Gato de Schrödinger. Até o ligarmos, tanto temos o que está lá dentro como não temos o que está lá dentro.

E em Arquivo não podemos lidar com probabilidades, especialmente quando um problema que sabemos que é recorrente (a perda da lubrificação do rolamento central) tem tendência a ocorrer, em média, depois de menos de dois anos de paragem. Voltando à Física, um disco rígido tem uma meia-vida de dois anos (se algum físico na audiência se quiser atirar pela janela fora por causa das analogias impróprias, usem capacete, se faz favor).

Alguns discos duram mais, mas não gostava de viver na incerteza se perdi 4TB de dados duma vez só.

E a tendência é para este problema piorar à medida que esticamos mais a tecnologia dos discos rígidos, porque a utilizada neste momento (cabeças GMR com gravação perpendicular) está a chegar ao fim da linha e os ganhos em densidade e preço vão abrandar o ritmo louco que têm tido na última década. Fala-se em encher a caixa dos discos com hélio, e em usar um laser para aquecer a superfície do disco para “activar” a zona de gravação, que depois estabiliza quando arrefece.

Neste momento os fabricantes já deixaram de oferecer garantias de 3 anos para os discos rígidos (de consumo) e os discos rígidos “empresariais” com taxas de erros mais pequenas (conseguidas com controlo de qualidade maior e algoritmos de correcção de erros mais potentes) custam 3 vezes mais que os domésticos.

Esta incerteza sobre o futuro da evolução da tecnologia impede-nos de calcular os custos futuros de um arquivo digital baseado em discos rígidos, especialmente no que diz respeito às migrações. E as migrações são um factor com o qual temos de contar em Arquivo Digital, inevitavelmente.

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 10 de Maio de 2013 em Cinema Português, Restauro

 

Etiquetas: , , , ,

A exibição de cinema está doente (II)

Ontem fui ver um filme. Segunda-feira, dia de desconto. Cinema no centro de lisboa.

Cheguei 10 minutos antes da hora marcada. Não estava ninguém à minha frente na bilheteira.

Dirigi-me à sala. A porta da sala estava aberta mas quando tentei entrar na sala a cortina da entrada estava corrida e a sala deserta. Faltavam 7 minutos para a hora.

Sentei-me. 3 minutos antes da hora alguém passa por mim a correr e entra na sala.

2 minutos antes da hora começa-se a ouvir som vindo da sala. Decido esperar, junto com mais 3 pessoas que entretanto se juntaram a mim, porque não há ninguém que nos peça o bilhete. Fico espantado, deve ser porque é um cinema com fama de “cultural” que ninguém entrou à pato-bravo (no Colombo teria sido outra conversa). Um assistente (talvez o mesmo que por mim passou como o coelho da Alice) volta calmamente da sala e FECHA a barreira. Falta um minuto para a hora.

Passam-se 3 minutos.

A barreira é aberta e as agora seis pessoas entregam o canhoto do bilhete, e dirigem-se para o som como se fossem morcegos. As cortinas estão abertas mas a sala está às escuras.

Felizmente não tenho de esticar uma metáfora manhosa até ao limite e dar estalidos com a boca para me servir de sonar. Já passou a publicidade (que ninguém viu) e os agora 8 espectadores tacteiam pelo lugar que lhes agrade mais, guiados pela luz intermitente dos trailers.

A sala toda por minha conta (ou quase).

Não me obrigaram a ver publicidade.

No dia do bilhete mais barato.

Os assistentes de sala é que arrancam com o projector, ai deles se vão à casa-de-banho.

A exibição está doente. E os trailers, esses não perdem pela demora. Me aguarde!

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 7 de Maio de 2013 em Exibição, Salas

 

Etiquetas: ,

A exibição de Cinema está doente

E tem como resultado coisas como o pedido de insolvência da Socorama (salas Castello Lopes). O segundo maior exibidor de Portugal deixou no ínicio do ano várias capitais de distrito sem cinema, e agora pediu protecção dos seus credores para poder reestruturar a dívida (e concerteza criar uma nova empresa que assume o património mas não as relações laborais).

Estas cidades vêem-se sem cinema porque os grandes distribuidores tiveram uma política comercial absolutamente hostil às salas independentes, que tiveram de fechar, deixando o mercado aos multiplexes (muitos deles associados aos grandes distribuidores). A distribuição, tal como no ramo alimentar, foi extraindo rendas cada vez maiores da sua posição de intermediário e do seu poder negocial, deixando aos exibidores uma parcela cada vez menor que os obrigou a:

  • despedir assistentes de sala
  • promover agressivamente a venda de refrigerantes e comida de plástico para consumir bovinamente na sala (já muito para além das pipocas: uma das últimas que vi foram pratos de nachos com molho de queijo)
  •  a fusão das bilheteiras com a venda da dita comida de plástico
  • a redução ou desaparecimento dos projeccionistas
  • a sobretaxa dos filmes 3D (que incluía óculos gratuitos)
  • a taxa extra dos óculos, a acrescentar à sobretaxa 3D que se mantém
  • a por fim, a subida geral do preço dos bilhetes

A exibição entrou portanto numa espiral em que além de concorrer com o home cinema (especialmente para famílias que para tentarem ver um filme pagam quatro ou mais bilhetes caríssimos, refeição fora de casa e estacionamento), e com a pirataria, oferece uma experiência que não justifica o custo.

Os únicos que podem justificar o custo são quem retira certas vantagens comerciais de ter um filme em sala que não dependem directamente dos bilhetes vendidos.

Colocar um filme nas salas de cinema é um passaporte para ter críticas nos jornais, notícias na televisão, cartazes em locais de grande público (centros comerciais), que dão legitimidade ao produto e criam uma familiaridade com o seu nome. Isto (está nos livros de marketing) facilita muito a tarefa do distribuidor quando tenta explorar as janelas seguintes (do DVD, do video-on-demand e da TV). O público ouviu falar dos filmes, tem uma vaga ideia do plot e dos actores, e se o filme tiver sido um sucesso de bilheteira vende-se sozinho.

Mas os exibidores não recebem nenhuma gratificação por este serviço a favor da distribuição. E como a distribuição ainda necessita dos exibidores, apoia de forma mais ou menos encapotada certos grupos privilegiados que lhe servem como braço armado para intervirem no mercado. Estes grupos têm benesses que os exibidores independentes não têm, e o resultado, que é espremer estes últimos para fora do mercado, está à vista.

Isto é preocupante para a “forma Cinema”, porque é indissociável da experiência colectiva da exibição em sala escura, do estado de semi-vigília, de sugestibilidade e de concentração da atenção causadas pela penumbra, e das margens entre a privacidade e a dissolução num grupo – quem não sentiu já que é muito mais gratificante rir duma comédia com o resto da assistência em sala do que rir sozinho em casa?

Sem a sala escura, perdemos o Cinema e passamos a só ter Audiovisual. E ficaremos mais pobres.

 
1 Comentário

Publicado por em 15 de Fevereiro de 2013 em Distribuição, Exibição, Salas

 

Etiquetas: , , , , , ,

O plano de preservação de gravações de som da Biblioteca do Congresso

Tem sido mais do que claro que o som tem sido a cobaia de todos os esforços de transição para o mundo digital, seja da rodagem, da pós-produção, dos arquivos ou da preservação. O som digital é muito mais simples (em complexidade e dados ocupados) que a imagem, daí que a curva da tecnologia digital atinge muito mais rapidamente a maturidade necessária para tratar e armazenar som digital sem perdas de monta e sem investimentos elevados, obrigando o som a defrontar-se com o impacto do digital muito mais cedo do que o resto do audiovisual.

No entanto, as vontades, as verbas, e sobretudo, os métodos e conceitos de transcrição, preservação e arquivo, não avançam à mesma velocidade da tecnologia.

A experiência com estes métodos e conceitos, conseguida nos arquivos digitais de som, é transferível directamente para o futuro dos arquivos digitais de imagem e audiovisual (porque ficheiros são ficheiros). Por isso todos os desenvolvimentos na preservação de som digital são fundamentais.

A Biblioteca do Congresso dos EUA publicou em Dezembro este documento:

National Recording Preservation Plan – The Library of Congress (PDF)

Digital technologies have fundamentally changed our lives in the twenty-first
century. In the born-digital age, file-based recording has become the
predominant means of audio production, and digital audio files now are accepted
as the standard format for preserving analog recordings. The State of
Recorded Sound Preservation in the United States called attention to the great opportunities
and challenges that the digital age has brought us. At the click of
a mouse, listeners can hear music and talk from the far corners of the world.
Digital technologies now aid preservation reformatting significantly. Yet, as
the study acknowledged, great challenges—technical, organizational, and
economic—that have accompanied the shift to digital preservation remain
unresolved. The National Recording Preservation Plan recommends that collaboration
among all stakeholders will be needed to take full advantage of
the promise of the digital revolution and confront the daunting challenges of
recorded sound preservation.
The major findings of the study showed that the challenges to saving
America’s recorded sound history in the digital age can be generally divided
into four categories: conservation and preservation reformatting; barriers to
public access; the need for professional education; and outdated laws that impede
both preservation and access. Based on these findings, the Library enlisted
Brenda Nelson-Strauss of Indiana University to direct the effort to develop
a collaborative national plan and coordinate the work of six task force
groups charged with developing specific recommendations in the areas of
education, professional training, and research; digital audio preservation and
technical standards; copyright and public access; public-private partnerships;
collection management; and fundraising and promoting public awareness of
recorded sound preservation.

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 15 de Fevereiro de 2013 em Notícias, Restauro

 

Etiquetas: , , , , , ,

Introdução básica à compressão de imagem nos vários modelos de câmara

Quando estava a tentar perceber que razões a RED tem para estar a processar a Sony por desrespeito de patentes (ainda não percebi), encontrei estes dois artigos no site da revista Broadcast Engineering, cuja leitura recomendo. Aborda a compressão desde as câmaras DV até aos vários métodos de transformar dados RAW em ficheiros, infelizmente de forma muito básica.

Compression for digital cinema cameras, part 1

Compression for digital cinema cameras, part 2

 
Deixe o seu comentário

Publicado por em 14 de Fevereiro de 2013 em Câmara, Rodagem

 

Etiquetas: , , , , , , ,